CADE Vs Google: o que a disputa sobre AI Overviews significa para portais de notícias

Escrito por Luiz Eduardo Bastos
09/07/2026

Este é um documento vivo. O caso está em andamento e esta análise será atualizada a cada movimentação relevante.

Atualizado em 16 de julho de 2026: análise agora baseada na leitura do estudo completo da Authoritas, obtido junto à Foxglove. Incluídos a metodologia, o dado sobre hard news e o ranking de domínios citados nos AI Overviews.

Atualizado em 11 de agosto de 2026: nova movimentação no processo. A Superintendência-Geral do CADE emitiu a Nota Técnica nº 61/2026 e o Despacho SG nº 1063/2026, na fase de instrução. O CADE deferiu ao Google a apresentação de provas documentais e laudos até o fim da instrução e rejeitou a preliminar de cerceamento de defesa da empresa. O texto abaixo foi ajustado para refletir com precisão a fase atual: desde maio de 2026, o caso é um Processo Administrativo para imposição de sanções.

Está em curso no CADE o processo que pode redefinir a relação entre o Google e o jornalismo brasileiro. Em 3 de julho de 2026, o Google protocolou sua defesa: 108 páginas pedindo o arquivamento do caso.

Eu li o documento inteiro. Não por curiosidade jurídica, mas porque trabalho como consultor de SEO especializado em operações editoriais, e o que está escrito ali afeta diretamente o tráfego de todo portal de notícias do país. Esta análise traduz a disputa para quem é de redação e de audiência, não de tribunal. Se você quer entender os fundamentos de otimização por trás dessa discussão, o ponto de partida é o meu guia completo de SEO para sites de notícias.

Um aviso honesto antes de começar: não sou advogado e não vou opinar sobre o mérito jurídico. Minha leitura é a de um especialista em busca avaliando o que os argumentos significam para tráfego, visibilidade e operação editorial.

O caso em dois minutos: de uma queixa de 2019 à era da IA

Linha do tempo do caso CADE vs Google, da representação da Globo em 2019 à defesa de 108 páginas em julho de 2026

O processo não nasceu com a inteligência artificial. Ele começou em 2019, com uma representação da Globo, em nome do G1, questionando a exibição de trechos de conteúdo jornalístico na busca sem remuneração.

A IA mudou a escala do problema. Os AI Overviews, os resumos gerados por IA no topo da busca, chegaram ao Brasil em agosto de 2024.

Em novembro de 2025, quatro organizações (Artigo 19, Idec, CTS-FGV e a britânica Foxglove) submeteram ao CADE um estudo da Authoritas, encomendado pela Foxglove, estimando que os AI Overviews podem reduzir o tráfego de veículos jornalísticos em pelo menos 20,6%.

O mesmo estudo aponta que a primeira posição orgânica, que convertia 21,4% das buscas em cliques, cai para 8,93% quando o resumo de IA aparece acima dela, e que as respostas de IA já aparecem em 35,3% de todas as buscas analisadas, mesma taxa observada especificamente em notícias sobre eventos recentes.

Tive acesso ao estudo completo da Authoritas, de 16 páginas, obtido junto à Foxglove. Ele analisou 5.023 palavras-chave buscadas no Google.com.br, coletadas ao longo de 5 de novembro de 2025.

Vale aqui a transparência metodológica: a Authoritas não mede cliques reais, ela mede quanto o AI Overview empurra o primeiro resultado orgânico para baixo na tela (546 pixels em média, mais da metade da tela visível) e converte esse deslocamento em perda de clique usando curvas de CTR. É uma estimativa, que a própria Authoritas classifica como conservadora, porque o único detentor dos dados reais de clique é o Google.

Em 23 de abril de 2026, o Plenário do CADE decidiu por unanimidade instaurar Processo Administrativo para imposição de sanções, e a instauração formal veio pelo Despacho SG nº 4/2026, em 7 de maio. Ou seja, o caso deixou de ser inquérito preliminar e passou à fase acusatória, em que a conduta é apurada com vista a uma eventual punição. Em julho, o Google apresentou sua defesa.

Os seis pilares da defesa do Google

Resumo do que sustentam as 108 páginas (íntegra da versão pública aqui), na minha leitura:

  1. A queda de tráfego começou antes dos AI Overviews. A defesa argumenta que o declínio do tráfego de busca dos publishers antecede agosto de 2024 e atribui a tendência à migração do público para redes sociais e vídeo curto.

  2. O estudo da Authoritas seria metodologicamente falho. Segundo a defesa, a pesquisa se baseia em uma seleção limitada de buscas de notícias e não mede cliques reais: ela registra o quanto o resumo de IA empurra os resultados orgânicos para baixo na tela, em pixels, e estima a perda de tráfego aplicando modelos históricos de taxa de clique por posição.

    A mesma metodologia foi aplicada no estudo britânico da Authoritas, submetido ao regulador de concorrência do Reino Unido, que documentou quedas de 47,5% no CTR em desktop quando o resumo de IA está presente.

    A crítica tem um ponto válido, porque a relação entre posição visual e clique não é universal. Mas há uma simetria que merece registro: quem possui os dados reais de clique é o próprio Google, e a contra-argumentação da defesa se apoia em números mantidos sob acesso restrito, que ninguém pode auditar.

    Enquanto isso, medições independentes com dados reais de tráfego, como as da Chartbeat, apontam na mesma direção do estudo, ainda que com magnitudes diferentes.

    Em resumo: um lado estima porque não tem os dados, o outro tem os dados e não os mostra, uma disputa que já se tornou pública entre o CEO da Authoritas e a chefe do Google Search.

  3. Os AI Overviews diversificariam as fontes. A defesa cita o próprio estudo da Authoritas para afirmar que 86,7% das páginas citadas nos resumos de IA não coincidem com os dez primeiros resultados orgânicos. Volto a esse número adiante, porque ele é o dado mais importante do documento para quem trabalha com SEO.

  4. Os publishers teriam controle. O documento lista os mecanismos técnicos de opt-out (nosnippet, max-snippet, robots.txt) e argumenta que quase nenhum veículo os utiliza, o que indicaria que o tráfego do Google é benéfico.

  5. Remuneração seria assunto de lei, não de antitruste. Austrália, Canadá, França e Alemanha trataram a compensação a publishers via legislação. A defesa sustenta que o CADE não tem instrumento para impor o que seria, na prática, uma política setorial.

  6. A crise do jornalismo seria estrutural e anterior ao Google. O colapso dos classificados e a migração da publicidade precedem a busca. E há um contra-ataque político: a defesa aponta a concentração do Grupo Globo, autor da queixa original, como o verdadeiro arranjo oligopolístico de mídia que a Constituição visava coibir.

Alguns desses argumentos são mais fortes do que a cobertura de imprensa sugere. Ler a defesa com honestidade importa mais do que torcer.

O dado da página 99: o que 86,7% revela sobre o novo jogo

Infográfico mostrando que 86,7% das páginas citadas nos AI Overviews não estão entre os dez primeiros resultados orgânicos

Aqui está o que considero a informação mais valiosa das 108 páginas, e ela passou despercebida na cobertura do caso.

Para sustentar que os AI Overviews diversificam fontes, a defesa recorre a um número do próprio estudo da Authoritas: 86,7% das páginas citadas nos resumos de IA não estão entre os dez primeiros resultados orgânicos da mesma busca.

Juridicamente, o Google usa o número a seu favor: "damos visibilidade a quem os rankings tradicionais marginalizavam". Mas leia o mesmo número com os olhos de quem opera um portal de notícias e ele diz duas coisas muito diferentes:

Estar em primeiro no orgânico não garante mais ser citado pela IA. A posição que sua redação levou anos para conquistar não se transfere automaticamente para o novo formato que aparece acima dela.

E não estar no top 10 não te exclui da visibilidade em IA. Portais menores, que nunca venceriam a disputa orgânica contra os gigantes, têm agora uma porta de entrada que não existia.

Em outras palavras: a otimização para respostas de IA é uma disciplina distinta de rankear.

Quem decide as citações não é a mesma lógica que ordena os blue links. E essa constatação não vem de um guru de SEO tentando vender novidade: vem de um número que os advogados do Google escolheram colocar em um documento oficial de defesa.

É a confirmação, pela fonte mais insuspeita possível, de que o jogo mudou de regras.

Quando o Google "diversifica fontes", quem ganha é o YouTube

A defesa usa os 86,7% para argumentar que os AI Overviews distribuem visibilidade de forma mais ampla. O estudo da Authoritas permite testar essa afirmação, e o resultado é revelador.

Gráfico dos domínios mais citados nos AI Overviews brasileiros, com YouTube liderando com 14% e veículos jornalísticos recebendo frações

A tabela de domínios mais citados nos AI Overviews brasileiros mostra quem realmente ocupa esse espaço diversificado: o YouTube lidera com 14% de todas as citações, sendo a fonte número 1 em 18 das 20 categorias analisadas. Depois vêm Instagram (4,9%), Wikipedia (4,2%) e, mais abaixo, fora do infográfico acima, o Google Tradutor (1,78%).

Os veículos jornalísticos aparecem com frações: G1 com 2,7%, CNN Brasil com 2,6%, O Globo com 1,8%.

Ou seja, a diversificação existe, mas ela aponta para o próprio Google (YouTube é propriedade da empresa) e para redes sociais, não para o jornalismo.

O argumento se volta contra quem o usa. Se o AI Overview realmente valorizasse fontes diversas de qualidade, o jornalismo profissional não estaria recebendo migalhas enquanto vídeo e enciclopédia colaborativa levam a maior parte.

Para quem opera um portal, a lição é dura mas clara: ser citado em AI Overview não é um jogo que se ganha só produzindo boa reportagem. É preciso entender que formatos e fontes o mecanismo favorece, e hoje ele favorece vídeo.

Nem toda editoria está sendo atingida do mesmo jeito

Em julho de 2024, no documento institucional How AI Overviews in Search work (PDF), o Google listou hard news entre as categorias que merecem proteção especial, ao lado de temas eleitorais, e declarou que busca não exibir resumos de IA nesses tópicos, por serem casos em que frescor e factualidade importam particularmente.

Dois meses antes, Liz Reid, chefe do Search, já havia escrito o mesmo em post no blog oficial da empresa.

Vale a precisão: "busca não exibir" é intenção declarada, não garantia. Ainda assim, é um compromisso público, e compromisso público se verifica com dado.

O estudo da Authoritas verificou. No Brasil, notícias sobre eventos recentes tiveram AI Overview em 35,3% das buscas, taxa idêntica à média geral de todas as categorias analisadas e superior à de várias categorias de notícia que nem tratam de fatos do momento. A proteção prometida não aparece nos números brasileiros.

E a variação entre editorias é enorme. Esportes registrou AI Overview em apenas 5% das buscas, e apresentadores e jornalistas, em 6%. No extremo oposto, Mídia e Tecnologia teve 70,6% de penetração, horóscopos 57,3% e saúde 45,9%.

E o caso da saúde tem um agravante duplo: além da alta frequência, é a categoria em que o resumo mais empurra o primeiro resultado orgânico para baixo, 708 pixels, quase dois terços de uma tela, justamente no tipo de consulta YMYL em que o mesmo documento do Google promete o critério mais rigoroso.

O estudo não investiga as causas dessa variação.

Arrisco uma leitura própria: onde o Google já tem outro recurso ocupando o topo da página, como placares esportivos ou painéis de conhecimento sobre pessoas, o resumo de IA não aparece. Onde a busca é explicativa, ele domina. É hipótese minha, não conclusão da Authoritas.

Para quem gere um portal, a pergunta prática ficou simples: a editoria que mais traz audiência para o seu veículo está em qual lado dessa tabela?

O que seu portal deveria fazer, independente de quem vencer

O processo vai levar tempo, com recursos e possivelmente anos de disputa. Nenhuma operação editorial pode esperar o desfecho para agir. Quatro conclusões práticas que extraio da defesa, válidas em qualquer cenário:

Trate a visibilidade em IA como frente própria de trabalho. Alguém vai objetar, com razão parcial: passagens claras, autoria identificável, dados originais e estrutura extraível não seriam apenas SEO bem feito? Nos fundamentos, sim, e quem os praticou na última década sai na frente.

Mas os 86,7% provam que existe uma camada nova: o ranking ordena páginas, a citação em IA seleciona passagens. São unidades de competição diferentes, e por isso um site pode dominar o top 10 e ser ignorado pelas respostas de IA, ou o contrário. O fundamento é o mesmo de sempre; o que muda é a granularidade em que ele é avaliado e a régua com que se mede o resultado.

Reduza a dependência de um único algoritmo. O argumento central do Google (a audiência migrou para redes sociais e vídeo antes da IA) é, ironicamente, o melhor lembrete de que audiência construída em terreno alugado é audiência em risco. Newsletter, marcas pessoais dos jornalistas e relação direta com o leitor deixaram de ser projetos secundários.

Os dados da Chartbeat divulgados pelo Axios em março de 2026 dão a dimensão: o tráfego de busca do Google para publishers caiu 34% em um ano, com perdas de até 60% para os pequenos.

Gráfico de queda do tráfego de busca do Google por porte de publisher: 22% nos grandes, 47% nos médios e 60% nos pequenos, segundo a Chartbeat

Fortaleça o que a IA não replica. A defesa inteira do Google pressupõe que os resumos sintetizam o que já existe. Apuração original, análise e dado exclusivo continuam sendo os formatos em que o clique sobrevive, porque não há como resumir o que ninguém mais apurou.

Atenção a uma crença comum que o estudo derruba: velocidade não é escudo. A própria Authoritas registra que, assim que uma notícia entra na web, ela já se torna candidata a ser resumida.

Reforce presença em vídeo. O dado mais incômodo do estudo é a dominância do YouTube nas citações de IA. Não é coincidência, é o formato que o Google favorece e propriedade que ele possui.

Um portal que produz só texto está competindo com uma mão amarrada nas costas. Vídeo deixou de ser canal secundário e virou parte da estratégia de visibilidade em busca.

O que acompanhar daqui para frente

O processo está em fase de instrução. Em 11 de agosto de 2026, a Superintendência-Geral organizou essa fase pela Nota Técnica nº 61 e pelo Despacho SG nº 1063: autorizou o Google a juntar provas documentais e laudos até o encerramento da instrução, considerou prejudicada a prova testemunhal, já que a empresa não indicou testemunhas, e rejeitou a preliminar de cerceamento de defesa. Os próximos marcos serão a continuidade da instrução e, ao final, a manifestação da Superintendência-Geral sobre o mérito, recomendando condenação ou arquivamento, que depois segue para julgamento pelo Tribunal do CADE. Atualizarei esta análise a cada movimentação relevante.

Fontes e documentos

Documentos do processo

Estudos e dados citados

Também analiso o cenário mais amplo da disputa entre buscadores e IAs em O ChatGPT vai matar o Google?

E se o seu portal de notícias já sente no tráfego o que esse processo discute em tese, é exatamente o tipo de diagnóstico que faço no meu trabalho de consultoria. Fale comigo.


luiz eduardo bastos
Luiz Eduardo Bastos
Consultor de SEO com mais de uma década de experiência. Bacharel em Comunicação Social (Publicidade & Propaganda), com especializações em Marketing Digital adquiridas ao longo da carreira. Atua com SEO técnico e de conteúdo para empresas e veículos que querem transformar busca orgânica em crescimento sustentável.

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